CUMBE, Marcelo D'Salete, 192 págnas, Editora Veneta, 2018 (nova edição!).
Cumbe é uma obra para ampliar possibilidades de leitura sobre o passado. A resistência de muitos africanos escravizados contra o sistema de trabalho forçado acontecia de modo direto, como a ação dos mocambos, e indireto, como as pequenas ações de rebeldia do cotidiano nas vilas e fazendas, demonstrando as tensões intrínsecas de uma sociedade pautada pela violência. O livro conta com um posfácio do educador e escritor Allan da Rosa.
Cumbe, foi publicado no Brasil, Portugal ( Polvo), França (editora Çà et Là), Itália (editora BeccoGiallo), Áustria (editora Bahoe Books) e EUA (Run for it, editora Fantagraphics). Em Portugal, o livro foi selecionado pelo programa Ler+ como sugestão de leitura para a rede escolar.
A obra foi considerada pela crítica especializada um dos principais quadrinhos do ano de 2014 no Brasil e em 2017 nos EUA. Cumbe foi indicado ao prêmio HQmix (Brasil, 2015), ao Rudolph Dirks Awards (Alemanha, 2017) e premiado no Eisner Awards 2018 na categoria Best U.S. Edition of International Material.

Este projeto foi realizado com o apoio do Governo do Estado de São Paulo, Secretaria da Cultura e
Proac 2013.

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Comentários

Com Cumbe, editado pela Polvo, que continua a ser um exemplo da edição da BD no nosso país, Marcelo D`Salete (nasceu em 1979) firmou de vez o seu nome na novela gráfica brasileira. Uma obra obrigatória, principalmente por dar finalmente o olhar do escravo, algo muito raro na literatura do Brasil.
Pedro Justino, Diário Digital

Aquilo que se torna a espinha dorsal, de ferro mesmo, de Cumbe, é o modo como é a voz dos escravos
a que toma o lugar central. Existe, na verdade, muito pouco texto, raras vezes surgem legendas recitativas,
e estas pertencerão sempre a uma das personagens. Mas a focalização, mesmo que por momentos possa
centrar-se num dos fazendeiros e donos de engenho portugueses (brancos), quer reforçar sempre o papel e
os gestos e a vida dos escravos negros. É a vida deles, e sublinhe-se a ideia de vida, no seu quotidiano,
na sua dimensão humana, onírica, de esperança, cultural, de angústias e amores, a que oferece a
sua matéria plástica a Cumbe.
Pedro Moura, blog Ler BD

They begin by visually introducing the reader to the harsh realities of slave life in those days. As the tales unfold, nothing supernatural happens, but the reader gets to see what resistance could mean. The high-contrast black-and-white images flow in a slower rhythm than in most recent comics, and the writer/artist knows how to profit from a number of well-planned and -placed silent pages. Even though they are submitted to slavery, his characters fall in love and achieve a personal life. His concise, precise pen and brush get to depict a number of very poetic moments, in which the struggle for freedom and a decent life is depicted as far more subtle than it may look at first, notwithstanding all the violence. 
Carlos Baptista, para o site http://www.paulgravett.com/

Para a realização deste livro, o autor estudou a escravatura e as marcas culturais do povos banto
(originários da região do Congo e Angola) no Brasil colonial, mas o “material” que encontrou não
permitiu apenas construir histórias, tecer personagens. Resgata, com a ficção, uma visão do mundo
que enfrenta a violência.
José Marmeleira, Público

To address Brazil's dark and hushed history, d'Salete crafted a searing and personal account of enslaved Bantu peoples, revealed in vivid black-and-white illustrations. Even more radical than the novel's subject matter is the fact that the story is told through the perspective of the victims, most likely for the very first time.
Priscilla Frank, The Huffington Post

Los vínculos con la cultura afro-brasileña son un tema recurrente en el trabajo de D’Salete, así como su enfoque en personajes marginalizados por sus circunstancias de vida, renuentes a ser victimarios de su entorno. Profundamente humanos, los protagonistas de las historias breves apelan a el concepto de justicia social, ante la exclusión de la diferencia y el racismo. Sin llegar a plantear un modelo idealizado o utópico de vida para sus personajes, D’Salete exhibe las grietas en el proyecto inacabado de país que es Brasil. La violencia institucional, la injusticia, y a vulnerabilidad de mujeres y niños, así como la discriminación y despojo que ha sufrido la población negra de su país hacen de sus trabajos de ficción, obras de testimonio y denuncia.
Juan Navarrete, Pacarina del Sur

Neste álbum, que foi um dia ganhadores do ProAC de 2013, Marcelo D'Salete conta quatro histórias de escravos, sempre focando na esperança e na resistência. As tramas são duras, realistas e violentas. Difícil o leitor desgrudar os olhos das páginas.
Sidney Gusman (http://sidneygusman.blogspot.com.br/2015/)


Capa da edição em inglês pela Fantagraphics.

Though Cumbé is rooted in fact, its stark illustrations and magical realism vividly provoke the poetic imagination. In “Calunga,” a mistreated slave drowns while attempting to escape a sugar plantation; as he sinks to the ocean floor, he has a stirring romantic vision of his lover. In “Sumidouro,” a female slave experiences a similarly moving hallucination of her dead baby, killed by the master’s mad wife. Together, these gruesome tales offer a tragic but illuminating portrait of Brazil’s black origin. It’s hard to look away.
Laura C. Mallonee, hyperallergic.com

Em Cumbe (2014), seu mais recente trabalho, o quadrinista abandona os conflitos urbanos do negro contemporâneo e a escuridão que ronda as periferias brasileiras, cenários das suas últimas e bem sucedidas incursões pelo universo das HQ´s, para voltar no tempo e contar, a sua maneira, histórias sobre a resistência de negros e africanos ao sistema colonial no Brasil do século 17.
Entrevista para a revista O Menelick 2o ato, por Matheus Gato

2014 ainda nem acabou e já tem sério concorrente a melhor graphic novel. Raridade no mundo da tinta preta, o autor, que é negro, tem especial apreço pelo resgate da cultura afro — o livro reúne contos de quando o Brasil era populado por milhões de escravos. As histórias, que tratam de perseguições a escravos fugidos, roubo de bebês e rebeliões de quilombos, são dramáticas e melancólicas, mas o traço elegante e os enquadramentos sofisticados de D’Salete expandem as narrativas na direção do mágico e do alegórico — o autor sintetiza delicadeza e violência como poucos, alcançando um resultado extremamente emocional. O trabalho impressiona mais quando se sabe que é só um capítulo da saga em busca de retratar uma de nossas histórias menos conhecidas e mais gloriosas: a do Quilombo de Palmares. O título, aliás, significa tanto quilombo quanto sol. Ou liberdade.
Ronaldo Bressane, Guia da Folha

Como quadrinho, "Cumbe" é recheado de cortes rápidos de câmera, planos abertos e close-ups coisa de roteiro pra cinema. O texto, econômico, se faz desnecessário diante da beleza criada a nanquim. As histórias contadas no livro, de resistência e insubmissão, focam em dramas pessoais, humanizando personagens que só estamos acostumados a ver em outras obras sobre o período como personagens secundários de histórias de personagens brancos. Revelando a necessidade de rever toda a historiografia do período escravocrata, sob a ótica negra. “Deixar essas narrativas apenas para que outros grupos contem sua versão dos fatos é uma violência simbólica enorme”, explica o autor.
Cleiton Campos, revista trip

Cumbe é dramática, forte, (muito) violenta e estilosa! A HQ chama atenção em vários sentidos. Primeiro pela carga dramática de seus desenhos, da forma como enquadra as imagens, de repetir o mesmo quadro para
ressaltar pontos diferentes. Na mesma figura perspectivas opostas sobre a situação, ou os sentimentos dos
personagens. A forma como a pesquisa histórica é jogada em forma de roteiro é aprimoradíssima. O silencio tambémé uma característica forte da obra, realçando o suspense, a tensão das invasões, as reações na calada da noite, os segredos, tudo feito e ressaltado com um traço forte, que arrisca e acerta.
Filipe Harpo, Blog Película Negra

Do que se trata: esperança e resistência contadas em quatros histórias que se passam durante o
período escravocrata brasileiro.
Por que é cabuloso: nos afasta da visão fria que análises gerais sobre o tema costumam ter e nos
transporta para histórias íntimas, em que muitas vezes é mais importante viver do que estar vivo.
Obras assim são a reafirmação da necessidade da História como ferramenta social.
Bruno Passos, site Papo de homem

Além de obviamente retratarem a diversidade brasileira, Cumbe e Tungstênio são narrativas plurais.
Enquanto Cumbe apresenta várias histórias em um mosaico de que vai trazer uma
grande história para o público, Tungstênio conta uma história só, mas que na verdade está fragmentada
em vários personagens e vários pontos de vista. Tungstênio também trabalha o
monólogo interno de maneira peculiar. Quintanilha não utiliza a primeira pessoa do singular, ele usa a
segunda, a terceira e isso, no início, causa um estranhamento no leitor: não se sabe
quem está narrando. Mais para frente, com outras vozes adicionadas à narrativa, entramos no jogo de
Quintanilha. Cumbe, por sua vez, não possui muitos monólogos, sua interiorização é
profunda, sim, mas se dá mais por meio de imagens que palavras, que criam uma empatia
gigantesca no leitor.
Guilherme Smee, blog Splash Pages

A história dos negros escravos no Brasil sempre foi negligenciada nas artes e com os quadrinhos
não é diferente. Por isso que um projeto como Cumbe, do quadrinista e artista plástico Marcelo
D’Salete merece ser celebrado. O livro traz histórias no período da escravidão com personagens
que resistiram contra a violência da senzala e do modo de vida opressor daquela época.
Paulo Floro, O grito!

"Em Cumbe, fora o fato de retratar um período que já é em seu próprio contexto encharcado de violência
e injustiça, o autor dispensa o macro (abordado nas escolas) e parte para o micro, no qual retrata
histórias de personagens específicos, suas dores e atos de oposição." 
Paulo Ceccoci, Universo HQ


Capa da edição em alemão pela editora Bahoe Books.

O sonho de ser dono de si é materializado em diferentes histórias de relacionamento, protagonizadas
pelos escravos. Do contato amoroso ao fraternal, do convívio coletivo à motivação individual.
"A escravidão foi uma forma brutal de desumanização e distorção das relações entre negros e brancos.
Um fato que marcou e marca nossa realidade social até os dias de hoje. Rever esse período, recriar
essa história a partir dos fatos que temos hoje, é tentar também repensar o presente", diz D'Salete.
Paulo Ramos

uma das melhores HQs do ano. quatro histórias ticantes, de humanidade profunda, força
emocional intensa,narradas de um jeito muito fodido (veja a cena do beijo no mar), por um artista
visual muito qualificado. se isso não fosse o bastante, a temática da HQ é das mais importantes pra
este nosso país construídos sobre os ossos de seus escravos. essa “denúncia histórica”, no entanto,
é o entorno e não o foco do trabalho, o que só o fortalece.
http://nasarjeta.tumblr.com/

Histórias “históricas” são, às vezes, exercícios narrativos meio enfadonhos e pretensamente didáticos.
D‘Salete não se perde - tudo está tenso, dramático, como sempre. A gente nem percebe que
está mergulhando na realidade do nosso passado.
Laerte Coutinho

A luta dos negros escravos no Brasil colonial contra a escravidão é retratada de forma inovadora
em “Cumbe”, de Marcelo D’Salete, que a Veneta lança neste mês. O livro traz quatro histórias
emocionantes protagonizadas por escravos, mostrando a resistência contra a violência das
senzalas brasileiras.
Pausa news

Seus enquadramentos, enfoques, alguns pontos que posso considerar como "links" para outros
desdobramentos, seu traço, a perfeita combinação espacial do uso do preto e do branco; não sei
qual músico famoso de trilhas sonoras disse que uma boa trilha é aquela que não percebemos.
Sua narrativa funciona da mesma maneira. Sou levado pelos quadros a continuar sem hesitação,
a ir virando página a página, saboreando os detalhes: a configuração tipográfica que ele deu ao rio
foi genial. Um excelente trabalho.
Wagner William

Em cumbe ganham cor, traço, sombra e palavra histórias sobre o período colonial. Os primeiros séculos
da colonização e da escravidão no Brasil são o suporte para uma silenciosa narrativa negra em que
ão raro liberdade significa morte. E a morte, calunga, um novo começo.
Matheus Gato

A palavra cumbe é sinônimo de quilombo em alguns países americanos. Nas línguas congo/angola tem
também os sentidos de sol, luz, fogo e força trançada ao poder dos reis e à forma de elaborar e
ória. As histórias deste livro trazem marcas gráficas caras ao universo banto, como o círculo e a
ão lugares e entre lugares, pontos de força. E também desenhos que se enamoram a mistérios e
ência simbólica e as referências a estátuas de postura guerreira e majestosa. Os dramas dos
´Salete apresentam personagens e contextos resvalando ou mergulhando nas palhas da loucura, da
ça, da paixão, da obsessão machista e das contradições dos envolvimentos afetivos e sexuais
ética possível em ambiente escravista, tropicando nas tramas da revolta e se aprumando na coluna da
ça. Nessa teia lateja o movimento político graúdo, coletivo e central da organização dos refúgios e
ças escravistas, movimentos entretecidos no equilíbrio e na alegria precários da resistência
úda, marginal, nas relações pessoais fervidas nas águas de sonhos cansados.
Allan da Rosa


Capa da edição francesa pela editora Çà et Là.

"Li numa só sequência, muito boa narrativa e a arte está maravilhosa como sempre. Um passo a
frente na sua arte e no quadrinho nacional. Axé"
Kiko Dinucci

A partir de documentos, a escravidão negra também foi explorada pelo roteirista, ilustrador e mestre
em história da arte pela USP Marcelo D’Salete. Cumbe é seu compêndio de pequenas ocorrências
reais transformadas pela ficção. Sinônimo de quilombo em alguns países americanos, cumbe tem
também os sentidos de sol, dia, luz, fogo e força nas línguas congo e angola. O livro em claro-escuro
faz a poética dessa servidão no Brasil. São HQs pungentes, todas em algum momento voltadas
para a realidade de amar sob o medo e na escuridão.
Rosane Pavan, Carta Capital

A narrativa economiza nas palavras. Transcorrem no silêncio imagético entre sinais e inferências, dando-nos a imersão àquela época em que qualquer sussurro por parte dos negros era exemplo para demonstrar o poder de seus donos, entre prisões, torturas e morte. Os traços dão a dimensão emotiva da história, representada por um grupo que fez parte da história como um povo maltratado e que, acima de tudo, desejava sair desta condição. Um retrato cruel da origem dos negros no país.
Thiago A. Correa, vortexcultural

Esqueça a representação do negro — escravo ou liberto — como resignado. Nenhum dos africanos que
vieram para o Brasil era igual e muitos deles lutaram para mudar a condição a que foram submetidos. É
desse ponto de partida, de certa maneira uma forma de reescrever a história mais conhecida, que
surgiram algumas HQs lançadas no país nos últimos tempos. Marcelo D’Salete e André Diniz são exemplos
importantes de autores brasileiros que fizeram da questão racial o centro de suas narrativas.
Alexandre de Paula